Às portas da percepção. 

 

Kika Goldstein aproxima a pintura da percepção do espaço e do tempo. Perdemos aos poucos a capacidade de nos orientar, uma vez que somos direcionados por georreferenciamento e notificados por aplicativos. Ao acompanhar com os olhos as séries de pinceladas e descobrir conexões entre formas e cores, seja no interior de cada pintura, seja entre as pinturas que compõem o espaço como um conjunto, restitui-se uma sensibilidade anestesiada pela tecnologia digital.

Sabemos onde estamos graças a uma série de experiências acumuladas. Sobre elas pairam incertezas que atormentam quem exige clareza e distinção. A pintura não minimiza as incertezas, pois produz experiências do pensamento motivadas pela dúvida. A bússola natural representada pelas estrelas não é, para a pintura, composta de objetos visíveis. O norte do trabalho de arte está em toda e em nenhuma parte, habita os interstícios, as relações.

As pinturas de Kika Goldstein foram produzidas sob a impossibilidade de apontar para um norte, de positivá-lo como um ponto cardeal. A partir dessa experiência crítica, a artista compõe uma constelação com obras de outros artistas, ideias filosóficas, memórias e percepções, os muitos nortes que motivam cada um dos gestos que se veem nas pinturas, condensados na intensidade obtida a partir da tinta a óleo com cera de abelha e sublimados no fulgor das cores. 

As formas não são voláteis nem diáfanas. São firmes, quase sólidas, mas, se sugerem a possibilidade de se consolidar em algo determinado, logo fluem e mudam de direção, desvencilham-se umas das outras, mantêm o espaço aberto.

As tonalidades ígneas não se diluem em meio aos verdes, ocres e azuis mais foscos, mas irrompem revelando que a terra não é transparente, pois há sempre algo de opaco no solo que sustenta a realidade humana: “A natureza ama esconder-se”, disse Heráclito de Éfeso. Não se trata do mundo percebido enquanto coisa, mas daquilo que escapa ao entendimento no espaço e no tempo, um mistério que subjaz a experiência.

As principais referências para Kika Goldstein durante a produção das pinturas foram as obras de Hilma af Klint (1862-1944) e Paul Klee (1879-1940). O período coincidiu com as exposições apresentadas pela Pinacoteca do Estado de São Paulo e pelo Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. Os dois artistas atuaram no limiar da pintura abstrata, dirigiram-se com igual intensidade para a introspecção e para uma experiência direta da natureza. O período coincidiu também com a gestação de sua segunda filha, Isabel.

Tornar visível o fundo inumano do ambiente humano é uma diretriz comum a Klint e Klee. Kika Goldstein segue esse caminho e encontra na dimensão intersticial das pinturas o que Deleuze chamou de “imagem viva” e que, segundo o filósofo, oculta uma “percepção”. Nosso olhar foi adestrado para se deter em coisas, mas, na pintura, cada forma, cor e pincelada ocorre em sinergia com outras, de modo que se configura uma constelação a cada olhar que se lança no espaço.

A constelação desdobra-se além das telas ou dos conjuntos de telas, converte o espaço em obra, o ser em relação. 

 

José Bento Ferreira

 
 

Memórias Perceptivas – Cor, Forma, Espaço 

 

Kika Goldstein nos diz que as memórias são uma fonte profunda de pesquisa para seus trabalhos. São memórias trazidas de um fundo original, de um tempo e um espaço não totalmente decifráveis. Manifestam-se por meio de um som, um odor, uma cor, por tessituras e atmosferas. Esses indícios de memória penetram, segundo a artista, numa compreensão maior, ou seja, num estado criador, num desejo como força produtiva que busca relações entre o que pode ser lembrado e sua experiência contemporânea de mundo da vida.

Kika desenha intenções pesquisadas em suas origens criadoras, orquestrando heranças próprias, referências fundamentais da arte e do interrogar incessante sobre sua atualidade como artista. É um exemplo sua descrição da construção pictórica pelas massas de cor na busca dos recortes de uma memória esquecida. O olhar movimenta-se à procura de uma arqueologia de formas soltas, fragmentadas e coloridas que, algumas vezes juntas, outras isoladas, se lançam num espaço matérico. 

Nas palavras da artista: “As formas dançam no lugar do suporte e oferecem-se ao olhar” e “por vezes, vemos cores-formas querendo transgredir os limites do local da tela e alcançar a profundidade vivida”.

Com seus recortes, encontros das imagens, velando ou entrelaçando sua plástica de mundo em jogos compositivos, Kika Goldstein nos deixa a impressão de que sua visão artística se fundamenta na crença de que a arte pode estar a serviço da cultura: na troca entre as várias dimensões do mundo da vida, a artista procura tecer em visualidades um lugar com a presença do olhar e do pensar sobre o mundo.

O que presenciamos, em primeiro lugar, é a relação da artista com seu ofício – seus esboços, desenhos, aquarelas e óleos são trabalhados por meio de um amplo estudo dos procedimentos a serem usados. Junto a essa característica, sua estreita relação com a pintura fundamenta reflexões sobre a construção da linguagem artística: a pesquisa sobre a cor, a forma que pode envolvê-la, suas texturas e materialidades são referenciadas por pensadores como Merleau-Ponty e Didi-Huberman. 

A pintura é uma forma de pensar o mundo, é a estrutura de conhecimento e um modo de projetar percepções, sínteses de vivências.

Em Memórias Perceptivas – Cor, Forma, Espaço, exposição que a artista abre em 10 de outubro na CasaGaleria – Oficina de Arte, o visitante tem a possibilidade de adentrar esse universo e perceber que Kika Goldstein, ao estar empenhada em demonstrar seu pensamento artístico, desenvolve um trabalho lógico e construtivo sustentado pelas relações existentes entre a realidade dada e aquilo que a sustenta por dentro, ou seja, entre a pintura e a apreensão inquietante de mundo.

 

Carmen Aranha e Loly Demercian